quarta-feira, maio 26, 2004

Diário de Bordo - Remada da Orla

O velho Guamá esperava revolto os caranguejos e eles chegaram por volta das 9h de domingo com suas carapaças flutuantes. A preamar anunciou-se em trinta minutos e, como por instinto, os crustáceos distribuíram-se nas embarcações — era a hora de partir. Diferente de uma regata, o espírito da remada insuflava confraternização. A flotilha trazia à frente as guarnições de remo cujas batidas simétricas mostravam fôlego, seguidas pelos caiaques hidrodinâmicos e seus destemidos cowboys. Os pequenos hobie cats e veleiros classe Laser saltitavam feito tralhotos. O “Gaia Terra” e o “Ilha da Fantasia”, dois barcos a motor, acompanhavam com galhardia os nautas. No ultimo, o estandarte negro do caranguejo hasteado no ponto mais alto do mastro lembrava um navio pirata, mas não estávamos ali para saquear e sim observar o que aos belenenses é negado. Um pouco atrás os casquinhos regionais davam o tom lúdico ao cenário — percebo que estas pequenas canoas estão na essência de nossa luta.

Logo após a saída da UFPA a bucólica margem direita torna-se urbana demais. Galpões espaçosos, trapiches apodrecidos, palafitas insalubres, barcaças sucatadas, balsas enferrujadas e até um bonito entreposto pesqueiro semi-afundado compõe a linha da ocupação desordenada. A privatização da orla é tamanha que muitos de nós ficamos surpresos que o rio esteja logo ali. De certo modo pulamos o muro que cerceia Belém para constatar a obra do descaso com o meio-ambiente e a cidade. Há muito para refletir e anotar nas estreitas margens deste diário: o rio tem duas margens opostas, uma intocada com belo horizonte vegetal e a outra tão maltratada que até as bem-vindas janelas viram simples frestas. Creio, contudo, que a beleza do curso d’água possa diminuir esta falsa dicotomia. Por isto navegamos.

As câmeras de televisão bebiam, com sede de imagens, toda a água barrenta do rio. E eis que surge mais um dos mistérios dos rios amazônicos: contra o sol as objetivas telescópicas transformavam os fotógrafos em curiosos botos. Dispostos em pequenos grupos brincalhões alguns mergulhavam, outros saltavam para cima da cobertura das embarcações. Pura sorte, pois o olho de boto é poderoso amuleto do amor e talvez ensine Belém a gostar um pouco mais do rio. E que jamais se arranque o olho do cetáceo, pois o rio o quer vivo.

Próximo do destino, já na baía do Guajará, o silêncio. Então os remadores coesos, os remos levantados sobre a cabeça com ambas as mãos, em uníssono entoam o brado: “Orla Livre!” O desembarque no Ver-o-Rio é rápido, ensolarado e festivo, mas neste momento da remada jogar as âncoras, se âncoras houvesse, não significa despedida, e sim reencontro com o rio.

Orla Livre - BLOG

Olá caranguejos,

O Movimento Orla Livre agora também tem seu alter ego digital: um Blog. Junto com o site www.orlalivre.com.br será nossa sala de imprensa. Os eventos, ações programadas do MOL, enfim o dia-a-dia dos caranguejos para vocês ficarem antenados.

Até mais.

segunda-feira, maio 17, 2004

Amazônia Jornal, 17 de maio de 2004, I Remada da Orla

Remada valoriza espaços que mostram orla do Pará

Belém e vários municípios do Estado têm o privilégio da beleza dos rios e da diversa flora amazônica. O Movimento Orla Livre defende a preservação de espaços que permitam que a população possa visualizar essa riqueza natural de seus entornos. Com este objetivo, foi promovido, ontem de manhã, a “I Remada da Orla”. Do passeio participaram canoas regionais, caiaques e guarnições de remo. A concentração aconteceu no porto da UFPA, na beira do rio Guamá, de onde o grupo seguiu até a praça do Ver-O-Rio, na baía do Guajará.

Alguns fotógrafos paraenses, como Dirceu Maués e Miguel Chikaoka, acompanharam o trajeto de um barco de apoio, de onde registraram a paisagem do percurso.